1º ISB – De Neruda a Guimarães Rosa: travessia de sabores, saberes e amizades compartilhadas.
Bom, continuarei apresentando esta série de posts. São 4 jeitos de olhar o mesmo acontecimento. Serão escritos e publicados na seguinte ordem: Sueli (que escreveu o primeiro), Drix (que escreveu o de hoje) , Eymard (que escreverá o de sábado que vem) e finalizando, euzinho, no do dia 28/08..
Expressam /expressarão a visão de cada um dos escritores do lunchinner que fizemos num sábado também, 23/07/10. E lunchinner porque?
Ora, por que o encontro dos que se conheceram através da Internet (de que maneira? Vocês saberão logo, logo) começou no almoço, atravessou a tarde, passou pelo jantar e terminou na madrugada de domingo.
Com vocês o 1º ISB, ou seja, o 1º Inter dos Sem Blogs. E o 2º post sobre o 1º, a visão da Adriana, a Drix
De Neruda a Guimarães Rosa: travessia de sabores, saberes e amizades compartilhadas. (by Drix)
Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. O de que um tira prazer de estar próximo. Só isto, quase; e os todos sacrifícios. Ou — amigo — é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por quê é que é.”
Foi assim que tudo começou: “sem precisar de saber o por quê é que é”. Alguns e-mails, alguns telefonemas, a indicação do blog DCPV, uma viagem ao Chile, uma visita à casa de Neruda em Isla Negra, um cartão postal… Esta história começa com uma amizade diferente, construída palavra por palavra… conversa desarmada, por meio da qual íamos nos revelando. A ausência física criava uma lembrança ideal. E logo começou a saudade do não vivido. Saudade do jantar de quarta-feira em Ferraz de Vasconcelos, saudade de um encontro em São Paulo, saudade de um encontro em Belo Horizonte… Saudade de tudo aquilo que os amigos gostam de fazer juntos… Saudade do primeiro encontro, que insistia em não acontecer… Certeza, apenas duas: amigo é a pessoa com quem a gente gosta de conversar e eu gostava de conversar com o Déo… As conversas continuavam… palavra escrita… sentimentos revelados… as vezes silencio… Mas já não tinha mais jeito… Era o começo de tudo…
“Felicidade se acha é em horinhas de descuido.”
Chegamos de Ferraz de Vasconcelos, Botucatu, Brasília e Belo Horizonte, para nosso “lunchinner”, o primeiro ISB do DCPV. A cada um de nós coube o prazer de um relato. Poderia descrever os pratos e seus ingredientes, ou falar das caipirinhas, do espumante, dos vinhos, dos digestivos, mas, certamente, Edu, Sueli e Eymard farão isso com muito mais propriedade. Resta-me, então, escrever sobre os sentimentos que envolveram os novos amigos que, durante doze horinhas de descuido, compartilharam lembranças, disputaram frigideira, cortaram cebolas, comeram muito, beberam muito, degustaram sal, brindaram à amizade, brindaram à felicidade.
“O real da vida se dá, nem no princípio e nem no final. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”
Jamais tinha experimentado o molho de tomate de D. Anina, mas já sentira o seu sabor por meio das palavras de Edu. É o mesmo sabor da “comidinha gostosa” (para quem não sabe: arroz, feijão, lingüiça, moranga e couve) preparada por minha mãe nas manhãs de sábado: sabor de carinho de mãe.
Foi assim que começamos nossa festa de Babette: bruschettas de tomates e macarrão ralado com molho de tomate da D. Anina. O macarrão foi feito de véspera… e refeito no dia. Não sei se precisava. Dé achou que sim, o que nos permitiu participar da produção. Alguns (dentre os quais me incluo) apenas admiraram… Outros ajudaram a ralar. Primeiro, no liquidificador. Quando ele parou de funcionar, passaram a ralar manualmente. Como nada é por acaso, era o primeiro sinal: naquele encontro tudo teria o seu tempo. O tempo da travessia. Que é também o tempo do fogão de lenha. Como escrevi para Edu, enquanto se cozinha o feijão, se ferve o leite e se assa o pão-de-queijo, o tempo pára em torno do fogão de lenha, para que os amigos conversem com calma. Nossa conversa estava apenas começando… Havia muita lenha para ser queimada…
Outro sabor experimentado naquele dia foi o sabor de presença de pai. Um pouco mais tarde, entre o cafezinho de depois do almoço e a salada da entrada do jantar, foi o momento do trupico: fatias de queijo canastra curado, com pimenta malagueta salpicadas, enroladas como omelete, cortadas como nhoque, preparadas com carinho, como fazia meu pai. Edu criou para Renata sua própria versão, com pimenta do reino no lugar da malagueta. Mas o carinho de pai para filha estava na dose certa. Como foi gostoso sentir o sabor de presença de pai novamente, em um dia tão especial, quando os momentos de alegria com os amigos acalmaram as lembranças tristes de um outro 24 de julho.
Não foi a sobremesa do almoço. Tampouco a do jantar. O sabor de Minas adocicou a conversa e foi se intercalando entre uma refeição e outra. Doces cristalizados como os de minha bisavó, mãe de meu avô paterno. O saber de Minas vai se intercalando neste texto, entre um comentário e outro, nas palavras de Guimarães Rosa. Edu já havia liberado: “Eu entendo que deveríamos cada um escrever como gosta. Eymard fazendo um post eymardiano, Sueli, um suelidiano e a Adriana um adrianístico, nerudístico e mineirístico.”
Foi assim que tudo começou, naquele janeiro de 2008, com a Oda al Caldillo de Congrio, enviada para o Déo, desde Isla Negra, em um cartão postal, que falava de sabores e saberes… “Saber vem do latim ‘sapere’ – ter gosto e por isso não significa apenas ‘conhecimento’. Significa também ‘ter sabor’. Poeta é aquele que com sua sabedoria, que vem dos sentimentos, dá sabor as palavras (…)” Em sua obra, Guimarães Rosa deu sabor aos saberes de Minas.
De volta aos doces cristalizados… Sabores e cores diversas, como o café, mas o café é outra história. Figo com nozes, limão com doce-de-leite, abacaxi, mamão e abóbora. Arrumados na bandeja conforme prometido. É verdade… Não fiz os doces, mas os comprei com tanto carinho que senti prazer de cozinheira ao ver como foram apreciados.
Durante nossa travessia, a gente vai juntando vivências, amigos, família, homens e mulheres, amores do passado, amores do presente, lágrimas e sorrisos. De tudo isso somos feitos… Do molho de tomate de D. Anina, da comidinha gostosa de minha mãe aos sábados, do trupico preparado com carinho pelos pais, dos doces cristalizados da Vovozinha. Nossa história é resultado de nossas lembranças e de nossos sentimentos construídos na convivência com a família e com os amigos.
“O mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou.”
É preciso ter coragem, para viver o desconhecido. E existe um sentimento especial em toda primeira vez… Como escrevi para Dé, um dia desafiei as montanhas e encontrei no infinito azul meu amor platônico. Ainda trago comigo a primeira imagem daquele encontro de céu e mar. É impossível reproduzir a expectativa do segundo antes do primeiro beijo, mesmo que o amor permaneça durante toda uma vida. Sinto por meus sobrinhos amor de mãe e lembro-me da primeira vez que vi o rostinho de cada um deles. É impossível passar por momentos como esses sem que algo mude dentro da gente. Viver alguma coisa pela primeira vez nos faz lembrar de que ainda há muito a ser descoberto… É a certeza de que as pessoas ainda não foram terminadas.
Não é novidade alguma para os amigos do DCPV que não sei quebrar um ovo, diferenciar salsa de cebolinha, couve de taioba, nem mesmo fazer um café. Bem… Não sabia fazer um café… Graças a uma máquina maravilhosa, a uma paleta colorida de sabores, que me lembrou as aulas de desenho artístico na Escola de Arquitetura, e a uma paciente e dedicada professora, a Dé, fiz meu primeiro café.
O cafezinho selou o fim do almoço – ponto de partida – e o início do jantar – ponto de chegada… Estávamos apenas no meio da travessia. E a nossa teve muitos brindes… Também não é novidade alguma para os amigos do DCPV que não bebo nada além de água, coca-cola normal e limonada suíça. Bem… Não bebia… Durante nossa travessia brindei muitas vezes o que foi suficiente para encher 1/4 de uma taça. Minha primeira taça de vinho…
O que tornou meu primeiro café tão especial foi a alegria com que Dé me chamou para dizer que eu faria o café! Jamais me esquecerei desse carinho. O que tornou minha primeira taça de vinho (tudo bem… o primeiro 1/4 de uma taça de vinho) tão especial foi o desejo dos amigos de que eu participasse do brinde, mesmo não bebendo. O que tornou o nosso primeiro encontro tão especial, foi a empatia confirmada no primeiro olhar. Não estarmos terminados nos possibilita viver a cada dia uma nova primeira vez…
“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”
Fiz o primeiro café, perdi o medo (principalmente o medo de quebrar a máquina) e não parei de fazê-los… De várias cores…sabores… Com açúcar, adoçante, puro… servidos aos que em volta da mesa conversavam sem pressa, compartilhando casos, desafiando a vida que insiste em correr. E naquele dia foram muitos casos… Às vezes a conversa afrouxava, sossegava, como que nos permitindo recuperar o fôlego para o próximo prato…
Falou-se de coisas do cotidiano… Casamento, família, amizade, amor. Muitos também foram os casos de viagens mundo a fora. O show de Jorge Drexler, na noite anterior, também surgiu no meio da conversa. Show que emocionou platéia, o próprio Jorge Drexler e seus músicos. Nesses momentos íamos nos descobrindo, sabendo um pouco mais de quem já se mostrava íntimo. Conversas tranqüilas…
Mas vez ou outra a conversa esquentava… ou divergia… mas sempre com bom humor.
Faltou geléia de laranja… Sim, o molho para a salada, com geléia de laranja é delicioso. Já havia experimentado em Brasília. Mas são muitos os sabores a experimentar em nossa vida e a substituição da geléia de laranja por outra não comprometeu o molho para a salada. Ficou diferente. Nem pior, nem melhor. Apenas diferente. E delicioso! Somos diferentes uns dos outros em alguns “ingredientes”, mas também nossas diferenças não nos fazem melhores ou piores. Apenas diferentes. É a possibilidade de múltiplos sabores que tornam molhos e pessoas tão interessantes.
Onde servir a casquinha de siri… Perdi parte da conversa, mas parece que existiam duas possibilidades. Não sei qual seria a segunda opção, mas pensei comigo mesma: a essência não está naquilo que nos envolve… Foi a melhor casquinha de siri que já comi e confesso que nem me lembro onde foi servida. Mas lembro-me que estava perfeita, ao lado da salada. Edu e Sueli montaram os pratos que se enfileiravam na bancada da cozinha “tendendo ao infinito”… Quase como uma imagem de um caleidoscópio.
Após a salada com molho sem geléia de laranja e a casquinha de siri, arroz branco, farofa de biju, moqueca mista de peixe, camarão e lagosta… Não sei se serei injusta, mas parece que aquela noite foi também a “descoberta” de Regina na cozinha. A mim coube o café. A ela, a farofa que, como todo o resto, estava deliciosa, principalmente quando misturada ao molho da moqueca. Tudo isso preparado por Edu e Sueli, com a ajuda de Dé, Lourdes e Mingão, que cortavam pimentão, tomate, cebola, cebola, cebola, cebola, cebola… Novamente a fileira de pratos para que fossem cuidadosamente montados e decorados por Edu e Sueli.
Para a sobremesa, toffe de caramelo. Um doce em duas versões: uma batida na sorveteira e outra, na batedeira. A diferença no preparo não se percebeu no sabor. Não teria como escolher a melhor. Mas como eram duas versões, não havia como não experimentar as duas para comparar.
Quando terminávamos a sobremesa, surgiu um novo tema para uma nova conversa. Jamais pensei que pudéssemos iniciar uma longa conversa a partir de um tema a princípio tão simples: a flor de sal. Mas naquele dia tudo era possível, afinal éramos um grupo de “chefs” e leigos. Seria mesmo diferente? Uma degustação de sal mostrou que pode ser. Talvez um sabor um pouco mais apurado. Pouca coisa mais branco. E a dúvida, para os leigos: flor de sal vale mesmo muito mais do que o sal comum? Seria uma diferença tão grande, que justificasse a diferença no preço? Da discussão uma certeza: precisamos aprender a valorizar o que realmente importa – no sal ou nas pessoas – para que a maneira como lidamos com as diferenças não seja injusta e etnocêntrica.
“Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.”
Não sei fazer molho para salada e casquinha de siri. Arroz branco, farofa de biju, moqueca mista de peixe, camarão e lagosta… nem pensar. Toffe de caramelo… também não.
Não posso comentar nada sobre as bebidas… Sei que Mingão preparou as caipirinhas. Jorge levou a cachaça. Eymard e Edu foram os responsáveis pelos vinhos, espumantes e digestivos. Todos beberam! Até eu, que mesmo não bebendo sei que não se brinda sem beber e não se bebe sem brindar.
“Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”… Desconfio que o melhor momento é o presente; o melhor lugar, aquele onde somos recebidos com carinho; a melhor companhia, a de quem nos faz sorrir. Desconfio que não há melhor tempero para uma vida feliz do que o amor e a amizade. Brindemos, pois, ao amor e à amizade!
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