Arquivo de 21 agosto, 2010

dcpv – 1º ISB – Eymard – Muito ajuda quem não atrapalha

 1º ISB –  Eymard – Muito ajuda quem não atrapalha

Bom, continuarei apresentando esta série de posts. São 4  jeitos de olhar o mesmo acontecimento. Serão/foram escritos e publicados na seguinte ordem: Sueli (que escreveu o primeiro), Drix (que escreveu o segundo) , Eymard  (que escreveu o de hoje) e finalizando, euzinho, no do dia 28/08..
Expressam /expressarão a visão de cada um dos escritores do lunchinner que fizemos num sábado também, 23/07/10. E lunchinner porque?
Ora, por que  o encontro dos que se conheceram através da Internet (de que maneira? Vocês saberão logo, logo) começou no almoço, atravessou a tarde, passou pelo jantar e terminou na madrugada de domingo.
Com vocês o 1º ISB, ou seja, o 1º Inter dos Sem Blogs. E o 3º post sobre o 1º, a visão do sócio Eymard.

Muito ajuda quem não atrapalha (by Eymard)

O 1º ISB nasceu de um sentimento nada nobre: o ciúmes. Os sem blog (eu, Sueli e Adriana) já não mais toleravam o Inter Blogs (IB) no DCPV. Sim, o que parece (um clube de querubins) nem sempre é. Há sempre um monstro que se esconde dentro de nós. A sabedoria está em conhecer e domar a fera!
Caro leitor, conto a minha versão desse lunchinner, já cantado em bela prosa e quase versos por SueliAdriana.

sexta-feira, 23/07 – 6:05 – um SMS mudaria meses de planejamento.  Falecimento do nosso amigo e colaborador Nelson. Velório em São Carlos (interior de S.Paulo) e enterro sábado, às 9 da manhã.

9:02 – estou na cadeira do dentista sob o efeito de uma droga. Máscara de oxigênio com um produto que dá “barato” para agüentar o tratamento.  Sabe a sensação de um chopinho a mais? Delícia!

11:03 - na rua, ainda sob o efeito da “droga”, ligo para o Edu. Cancelo nossa ida ao esperado show do Jorge Drexler e no tantas vezes planejado passeio no sex-shop.  Confirmo que estaremos para o jantar. Não sei se ele entende bem. Desligo. Mando e-mail para Sueli e tento falar com Adriana, que já está em São Paulo.  Não consigo.

17:58 – estou na estrada, bela estrada, quase chegando em São Carlos. O telefone toca, é o Edu. Agora ele entendeu melhor tudo que se passou. Leu meus e-mails. Empresta solidariedade.  Insiste para que cheguemos mais cedo no sábado: “— para descontrair, para relaxar…”, diz ele. Confirmo que estaremos lá.

Sábado, 24/07 – 9:30 – manhã de silêncio. Céu azul sem nuvens. O tempo…..o silêncio…a alameda de “ciprestes”. Minha mãe sempre diz que é um lugar de paz e tranquilidade. É isso que sinto agora. Na volta para Campinas, presto atenção nos vales e montanhas da região. Observo o contraste entre o azul do céu e a imensidão de nuances de verdes, ao longo da estrada. Penso na diferença da paisagem do cerrado. No caminho, longos papos com outro Edu, o meu compadre.

11:49 – Subo correndo as escadas; banho; Lourdes prepara a mala (o Edu disse que o jantar será de gala-rsrs); novas e rápidas explicações para filhos e família sobre o que, exatamente, faríamos em São Paulo com a turma da “internet”. Rola um ciúmes pela ausência no final de semana. Tudo bem. Já sei que faz parte e como domar esse monstrinho. Não tenho muito tempo. Estou acelerado. Pego o carro e quero chegar o mais rápido em São Paulo. Ligo para a Sueli. Ela atende: “Che-guei!!!” (Sueli não chega, estréia!). Aviso ao Edu que estamos saindo de Campinas….

 

12:58 – me lembro da programação original. Eu levaria vinhos. Planejei tudo com tanta antecedência; pesquisei, já tinha uma idéia segura…e…agora…reprogramando! A arte de se adaptar ao que não se escolhe. Minha única saída: dar meia volta e ir na Grand Cru de Campinas.

Viagem pela terra dos vinhos. Quero um alemão. Uma discreta e silenciosa homenagem aos amigos Helena/Hans. Escolho o Riesling.  —“Será uma degustação entre amigos”, digo eu. Explico novamente o cardápio (será que me lembro do cardápio? — “Tem ceviche, Lourdes?” Vai combinar com o Riesling). Dois brancos; quatro tintos leves. O champagne eu havia separado da mais recente viagem. Não sei se será suficiente. A esta altura nem sei se realmente esses vinhos vão combinar. Eu quero é chegar!

14:57 – estou na marginal. Ligo para o Edu. Digo: “—sócio, chegamos! Vou deixar as coisas no hotel e já estaremos aí. Conheço bem São Paulo. Não preciso de GPS.” !….Erro a entrada….vou até a ponte espraiada…volto….circulo….tenho certeza que o hotel é por aqui…..15:34 – um taxista dormindo no ponto. — “Amigo, amigo….onde fica…”. O taxista resolve ir na minha frente, sem cobrar nada. Um anjo camarada. Penso: —“ainda existe gente assim!” Em agradecimento peço a ele que me espere na porta do hotel. Vai levar-nos ate a “praia”. A Lourdes erra o número. Pegamos a rua em sentido contrário. Volta! Chegamos! Nos despedimos do taxista gente fina. Sem ele,  chegaríamos para a ceia.

16:03 – toco a campanhia (não sem antes errar o andar). Uma sorridente Dé nos recebe.  O ambiente não poderia ser mais bonito. Mais alegre. Mais aconchegante. Cheio de luz!  Já estão todos como uma família de antigos laços e histórias. A mesa está posta e o almoço servido. Chegamos bem na hora! Perdi toda a primeira parte (a preparação, as caipirinhas, os primeiros papos de reconhecimento…). Já sinto saudade do que não vivi. Mas chegara a tempo para comer, de joelhos, o macarrão ralado da dona Anina. Com muito, muito molho vermelho. O frango bem assado e as batatas coradas (dispenso as batatas e repito, o quanto consigo, aquele macarrão ralado com muito, muito molho vermelho).

Por alguns instantes me sinto relaxado e muito feliz.  Olho em volta de mim. Ainda tenho tempo de conhecer Mingão, Regina e a Re. Me sinto em casa!

Mingão e Regina são os novos/velhos amigos. Quero saber como são esses semanais encontros. Desconfio que  Edu bota todo mundo pra ralar e ele fica sentado, de pezinhos para cima, escrevendo para o blog! Afinal, na internet, tudo que parece pode não ser. Se somos sócios, preciso saber de tudo!

Olho o relógio. Estranho, não consigo saber que horas são. Os ponteiros não se movem. Não! Espere… eles se movimentam em ritmo frenético.

Querido leitor, a partir desse momento, não consigo mais fazer o registro pelo tempo, com vinha fazendo. Tudo me parece muito acelerado. Imagine um filme do Chaplin; ou aquele filme, que agora não me recordo o nome, que as imagens são rápidas como a música — lembrei — Koyaanisqatsi, com música do Philip Glass (alguém se recorda?).  Uma outra rotação. Já não sei se é o efeito do vinho. Ou a adrenalina do encontro. Ou a velocidade de tudo que se passou pela minha cabeça desde a noite da última  quinta-feira. Sei que não consigo segurar o tempo…ele vai passando rápido demais!

Continuamos a fazer mil planos: vamos até a  Sódoces comer uns macarrons….vamos começar a preparar o jantar… ”—E as coquiles?” , grita Sueli. Sueli não as trouxe, confiante que Edu traria as suas. Eu acho brega coquiles. Mas,  não ouso falar isso para Sueli.  Edu não as tem na praia (ufa!). Nem pensa em colocar o siri nas coquiles. Então, não teremos “casquinha de Siri”, sentencia Sueli. Teremos “creme de siri”. E a geléia de laranja? “—Você comprou Edu? Estava na receita.” Xiii, esqueceu! Pega a summa gastrônomica com os detalhes do cardápio. Lê em voz alta. Chegamos à conclusão (com minha preciosa interferência na interpretação daquelas regras): não há obrigatoriedade de geléia de laranja para a salada. Edu tem outras geléias e, afinal, o que importa a geléia?

O tempo passa ainda mais rápido…a Sodoces vai ficar para a próxima. E o bolinho de banana para combinar com o sorvete de toffe? (ou não seria bolinho de banana? Seria bolinho de canela!?).  Não dá mais tempo para fazer. E também não dá mais tempo para ir ao hotel trocar de roupa. Temos pressa….me lembro do coelho da Alice, do filme do Tim Burton e da interpretação tão pessoal que a ele emprestamos eu, Sueli e Lourdes.

Sueli assume a cozinha. Distribui tarefas. Comanda as ordens. Vejo a Adriana arrumando delicadamente os docinhos em fileiras. Não resisto! Como um…como dois….humm….limão com doce de leite, o meu preferido!

Já não sigo a ordem dos acontecimentos, mas da minha memória. Aos trupicos! Todos em volta do fogão e, dessa vez, o milagre! Tudo sai perfeito. O queijo esta no ponto certo. A pimenta, ardida! Comemos lambendo os dedos, como crianças.

Lembro que fomos nos conhecendo também aos “trupicos”. Primeiro eu e Sueli, debruçados na janela do Conexão Paris, pitacando! Jorge e Lourdes toparam o encontro na Boulangerie do Guilhaume. No telhado do Palais de Tokyo aparecem Eduardo Luz e Dé. Quem é esse cara? Vou ao DCPV e não paro de ler. Leio tudo. Gosto de tudo. Um post me chama mais atenção do que outros:  a viagem ao Peru. E um comentário me chama mais atenção do que outros: o de Adriana. Alguém que ainda manda cartões postais? Gosta de Neruda e escreve como quem prepara um banquete? Esse pessoal é bom e quero compartilhar essa informação. E-mail rápido para Sueli. Paixão à segunda vista. Troféu número de linhas nos comentários e início de uma grande amizade. Nossa sociedade estava só começando. E eu nem sabia!

Volto para o lunchinner!

Lourdes é convocada para picar os tomates. Mingão se apresenta para o alho. Regina disfarça em conversas com Adriana. É imediatamente convocada: — “vai mexer a farofa”. Assume a panela. Mas não pode mexer de qualquer jeito. Sueli passa as instruções: — “virando da direita para a esquerda sem parar…..nao deixe queimar! Muita manteiga e vai mexendo…..Não esqueça do rebolado!!! Olha a ginga.”

Cebola MILIMETRICAMENTE cortada! Nunca vi ninguém picar cebolas como a Sueli. E o Mingao ataca: — “Isso é TOC: Transtorno Obsessivo Cebolístico.” A casa vem abaixo….somos todos risadas. Rimos novamente como crianças fazendo travessuras.  E o clima está cada vez mais gostoso. Cada vez mais rápido. Puxo um banco e sento ao lado do Jorge. No balcão, de frente para: Mingão, Lourdes, Sueli e Regina. Dé tenta organizar as compras. Edu tenta retomar o comando. A cozinha parece pequena para dois egochefs! Mas, aos poucos, as coisas vão se acomodando. O perfume começa a invadir a “nossa praia”. O interfone toca. É ele: o sujeito oculto que permitiu Adriana conhecer Edu, que conheceu Eymard, que conheceu Sueli….O primeiro, que será o ultimo a ser conhecido: Déo.

Déo é apresentado. Nem precisa, já o conhecemos de todas as terças feiras. 

—“O Eymard não fez nada ate agora! Precisa ajudar de alguma forma. Vai limpar a lagosta.” Pergunto: — “onde está bucha e sabão?” Gentilmente me dispensam da tarefa.
Já nem sabemos que horas são. A sessão será corrida. Sem intervalos. Faremos inveja ao Zé Celso Martinez na montagem dos “Sertões”.
Déo precisa ir embora e Adriana é liberada para uma “rápida” passagem pelo hotel. Meia hora. Não mais que isso. O comando, dessa vez, é meu!
Enquanto isso tudo vai se ajeitando na cozinha. Na sala vejo Lourdes e Dé se desmanchando nos anéis de guardanapo. Como gostam desse “acessório” de mesa…

Ligo para Adriana. —“5 minutos é o tempo que te resta” . Já está no prédio. A professora é extremamente disciplinada e pontual. Do outro lado do balcão, na cozinha, tudo parece se encaminhar para os finalmentes. Fico impressionado como aquela confusão do início, vai se transformando aos meus olhos.

Sueli resolve fazer uma bolinha de creme de siri. Passa na farofa e….virou um bombom! Bom..bom demais!!! Quero outro.

Linha de montagem. A mais linda linha de montagem que eu já vi. Os pratos, os chefs e os ajudantes. Os olhantes: eu e Jorge. Sueli diz: —“aquele é o prato do Eymard” .  Era o mais “guloso” dos pratos. Me fez lembrar Adélia Prado.

Edu, como o grand chef, finaliza os pratos. Vamos todos à mesa, como sempre, preparada com capricho pela Dé.  Abrimos o Riesling. Depois de tantos outros e com aquele “creme de siri”, a harmonização é perfeita (ué, mas não era ceviche?). Helenístico! (já não me lembro o nome que dei. Edu anotou todos, certamente os colocará no seu post). Fiquei feliz com a escolha e os olhares dos amigos na mesa. E me lembrei , de novo, de Adélia Prado.

A moqueca. Serviço à francesa. No primeiro bocado, perfeita! A crocância da farofa no contraste com o molho, o peixe, o camarão, a lagosta e o arroz…. Edu colocou uma flor comestível para enfeitar cada prato. De novo, lembrei-me de Adélia. Noite de sínteses e contrastes.

A sobremesa. O sorvete de toffe sem o bolinho de banana (ou seria de canela?). Não deu tempo. Não fez falta. O sorvete estava “fresco”. Frescura deliciosamente arrumada por Edu, com um toque de pétalas de lavanda, trazidas pela Dé. Adélia? De novo!

Que noite! Acabou?

Não. Ela continua nas quatro versões de uma mesma história. Continuará na nossa memória afetiva, olfativa, gustativa.

Sueli tem razão. Minha colaboração nesse encontro foi a consagração de outro adágio: “muito ajuda quem não atrapalha .  Ajudei muito, atrapalhando pouco. Mas continuo pensando no meu papel. Mineiro de nascimento; paulista na formação; brasiliense por profissão e opção. Agulha e linha costurando essa amizade que passa pelas gerais, continua em Ferraz e chega ao planalto.

Uma noite que seria feita de adágios (o conceito definido para o 1º ISB, anarquizado pelos cavalheiros Eymard e Eduardo). Um dia inteiro feito de carinho. E não é que somente agora lembrei-me porque Adélia Prado não saiu da minha cabeça?

“Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
Ela falou comigo:
“coitado, até essa hora no serviço pesado”.
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.”

(ensinamento, poesia reunida, 1991, editora Siciliano).

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