Arquivo para 18 de março de 2008

teorema de neruda : mar + terra = céu

número 171                                                            27/02/08

                         Teorema de Neruda : Mar + Terra = Céu

Uma amiga do Déo, a Adriana Simões de BH, mandou um cartão postal pra ele. Ela escreveu o seguinte :

Saber vem do latim “sapere” – ter gosto e por isso não significa apenas “conhecimento”. Significa também “ter sabor”. Poeta é aquele que com sua sabedoria, que vem dos sentimentos, dá sabor as palavras. Com seus poemas, Neruda nos sacia a alma.
Felices Miércoles ! Besos, Ed
!” Adriana, 29/01/08

Dá uma olhada no cartão postal :

dsc05963.jpg

E leia o que está escrito nele :

ODA AL CALDILLO DE CONGRIO

En el mar tormentoso de Chile vive el rosado congrio, gigante anguila de nevada carne.
Y en las ollas chilenas, en la costa, nació el caldillo grávido y suculento, provechoso.
Lleven a la cocina el congrio desollado, su piel manchada cede como un guante y al descubierto queda entonces el racimo del mar, el congrio tierno reluce ya desnudo, preparado para nuestro apetito.
Ahora recoges ajos, acaricia primero este marfil precioso, huele su fragancia iracunda, entonces, deja el ajo picado caer con la cebolla y el tomate hasta que la cebolla tenga color de oro.
Mientras tanto se cuecen con el vapor los regios camarones marinos y cuando ya llegaron a su punto, cuando cuajó el sabor en una salsa formada por el jugo del océano y por el agua clara que desprendió la luz de la cebolla, entonces que entre el congrio y se sumerja en gloria, que en la olla se aceite, se contraiga y se impregne.
Ya solo és necesario dejar en el manjar caer la crema como una rosa espesa, y al fuego lentamente entregar el tesoro hasta que en caldillo se calienten las esencias de Chile, y a la mesa lleguen recién casados los sabores del mar y de la tierra para que en ese plato tú conozcas el cielo
.”
Pablo Neruda.

Eu juro que não conhecia este poema! Mas é lindo demais e é uma belísssima receita que você faz na proporção que lhe convier ( pra nós que gostamos de cozinhar não tem receita melhor do que esta !).

Traduzindo para o português a parte final do poema (me recuso a traduzir o restante pois ele, pelo menos pra mim, é mais bonito ainda com a sonoridade do castelhano!) fica assim :

E a mesa chegam recém-casados, os sabores do mar e da terra, para que neste prato tu conheças o céu“.

Vou insistir! É lindo demais! E como eu descobri alguns outros poemas de Neruda sobre alimentos (e sobre o vinho também) estava montada a nossa noite de quarta-feira.
Felices Miércoles para nosotros !   

Uno – Papa e Cebolla

Começamos a noite com uma pequena adaptação. Como não achei a receita do Pisco Sauer, o Déo improvisou (magnificamente, por sinal) e fez um Pisco Sun Rise. Muito bom !

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Com estas duas maravilhosas Odas …

Cebolla –

Cebolla, luminosa redoma, pétalo a pétalo, se forma tu hermosura.
Escamas de cristal te acrescentaron y en el secreto de la tierra oscura,
Se redondeó tu ventre de rocio
“… Neruda

Patata –

Papa, te llamas papa y no patata, no nasciste con barba, no eres castellana: eres oscura como nuestra piel, somos americanos, papa, somos indios “… Neruda

… escolhi uma Sopa Creme de Batata Doce e Gengibre (Batatas – pag 30) que é quase um mingauzinho salgado e ardido pela presença do gengibre. Acompanhamos com Cebolas Marinadas (Cozinha Mediterrânea – pag 52) e Minicebolas Carameladas (Claude Troisgros -pag 52). Estou ecônomico nas descrições pois a como a comida se encaixou perfeitamente com as poesias, o silêncio já falava por si.

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Tomamos um Rosé Syraz Petit Verdot 2006 Vina Chocolan (Chile) que mostrou-se “swetty, irmão gêmeo da sopa, poesia, nerudesco” e que, certamente, Neruda tomaria quando estivesse em La Chascona !

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Dos –  Congrio, Limon y Tomates

A receita mais simples e provavelmente ( até pelo encanto) a mais saborosa que eu já fiz na minha vida (Ó o Mingão baixando em mim!!). Leia a Oda ao Caldillo de Congrio novamente e você sentirá o sabor do caldillo que é pura poesia !

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Vamos a mais Odas:

Limon –

De aquellos azahares desatados, por la luz de la luna, de aquel olor de amor exasperado, hundido en la fragancia, saliò del limonero el amarillo, desde su planetario bajaran a la tierra los limones “… Neruda

Tomate –

La calle se llenó de tomates, mediodia, verano, la luz se parte en dos mitades de tomate, corre por las calles el jugo“… Neruda

E  este belo Congrio foi maravilhosamente acompanhado por uma arroz Basmati “limonado” (by Eduardo) que foi formado pelo arroz misturado a limão siciliano confitado e temperado com um espetacular sal de limão.

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O vinho ? Um Chardonnay Chateau los Boldos 2007 (Chile) que foi “siciliano, lemon wine, lemoncello, nerudesco” segundo, a esta hora, os poetas, nós mesmos ! E é claro que Neruda cansou de tomar este vinho em La Sebastiana !

Tres – Vino

dsc06011.jpg

E infelizmente, a última Oda :

Vino –

Vino color de dia, vino color de noche, vino con pies de purpura o sangre de topacio, vino, estrellado hijo de la tierra,”… Neruda

Fiz um sagu de vinho com calda de chocolate (receita tirada do blog do Luiz Horta ). Ele foi  feito com suco de uva fresca e com um Cabernet Sauvignon Casa Perini 2002 (Brasil). O morango entrou como efeito estético pra realçar a produção fotográfica. Chique, não ?
Outra poesia em forma gastronômica que bem poderia passar por uma obra de Miró!

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Acompanhamos com uma bela dose de Lemoncello Pellegrino ( uma homenagem italiana ao nosso querido Neruda) pois o limão junto com o caldillo do prato principal ainda estavam na nossa memória gustativa.
E certamente, quando Neruda estivesse com “larica”, ele comeria/beberia esta dupla lá na Isla Negra. 

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Bom, é isso aí! Grato a Adriana, a Drix, por através desta bela lembrança nos levar a uma tão ou mais  bela pois ficamos sem saber onde começava a poesia e onde terminava a gastronomia. Uma coisa é certa : este menu seria muito pior (ou menos bom) sem a poesia de Neruda.

Pra terminar, ficam as impressões dos andinos, nós, sobre a noite :

“Neruda descreveria esta noite com uma Oda às Quartas ! (Eduardo)

Esta pequena homenagem ao Poeta valeu o prêmio Nobel da Gastronomia“. (Mingão)

Inesquecível! A conotação correlativa com as “odas” de Neruda se materializou! Soberbo! (Déo).

Até a próxima !

Amo sobre una mesa, cuando se habla, la luz de una botella de inteligente vino “.
(Pablito. Depois deste jantar, Neruda ficou íntimo de todos nós !)

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